Em baixo segue a história do Alcaide de Faria como foi narrada por Fernão Lopes. Os nossos comentários seguem em blocos destacados. O português utilizado é o que está na presente na Crónica de Fernão Lopes na Biblioteca de clássicos portugueses.

Capítulo LXXVIII

Como Henrique Manuel pelejou com Pedro Sarmento, e foram vencidos os portuguezes.

Jazendo Lisboa d’esta guisa cercada (por esta altura D. Fernando estava cercado em Lisboa pelo rei de Castela D. Henrique II) , entrou entre Douro e Minho Pero Rodriguez Sarmento, adeantado (comandante) em Galliza, e João Rodriguez de Bema e outros fidalgos d’aquella terra, e chegaram até Barcellos, e gentes de Portugal, d’aquella comarca, se juntaram para pelejar com elles, assim como D. Henrique Manuel, tio d’el-rei D. Fernando, irmão de D. Constança, mulher que fôra d’el rei D. Pedro, e João Lourenço Bubal, cavalleiro, e Fernão Gonçalvez de Meira e Nuno Végas o Velho e outros fidalgos, e o conselho do Porto e de Guimarães.

Quando os castelhanos isto souberam, ordenaram de os attender (encontrar em batalha), e lançaram uma grossa cillada de muita gente em um logar escuso (provavelmente o lugar da Portela perto da freguesia dos Feitos, onde foram encontrados vários restos de armaduras medievais), de que os portuguezes não souberam parte; e começada a peleja, levavam os de Portugal a melhor de seus inimigos. N’isto, sahiu João Rodriguez de Bema da cillada onde jazia, e fez grande som como eram muitos, e começou logo de fugir a cavallo um escudeiro, com a bandeira de Henrique Manuel, e os seus começaram de brada contra elle, dizendo:

– Vae-se a bandeira, vae-se a bandeira!

– Amigos, disse elle, não cureis da bandeira que é um pouco de panno que se vae, mas curae do meu corpo, que aqui está, em que deveis ter mór esforço que n’ella; porém, pelejemos todavia por vencer, e não cureis da bandeira.

Então, pelejaram até que se venceram e foram de todo desbaratados.

Nuno Gonçaloves (o Alcaide de Faria), que tinha o castello de Faria, quando viu ir os portuguezes para esta peleja, sahiu do logar com alguns dos que tinha, cuidando de dar de suspeita nos inimigos, e que uns d’uma parte outros de outra que os colhessem na metade: e os castelhanos, que tinham já vencidos os primeiros, voltaram sobre ello, e foi vencido e preso.

E foi ali morto João Lourenço Bubal, e preso Nuno Végas e Fernão Gonçalves de Meira, e Henrique Manuel fugiu para Ponte de Lima; e foram preses d’homens d’armas e de pé, até cento; e mais alguns cidadãos do Porto, entre os quaes foi preso Domingos Peres das Eiras, que eram dos honrados do logar, e pagou por si, de rendição, dez mil francos d’ouro, e n’aquella semana que foi solto chegou uma sua nau de Flandres que em frete e mercadorias trouxe dez mil francos para seu dono. E assim houveram os castelhanos muitas rendições d’outros alguns que ahi foram presos.

Capítulo LXXIX

Como Nuno Gonçalvez de Faria foi morto, porque não quiz dar o castello a Pedro Rodriguez Sarmento.

O bom escudeiro de Nuno Gonçalves, que foi preso n’esta peleja que ouvistes, tendo grão sentido do castello de Faria, que deixara encommendado a seu filho, cuidou aquillo que arrazoadamente era de presumir, a saber: que aquelles que o tomaram o levariam ante o logar e, dando-lhe alguns tormentos ou ameaça d’elles, que o filho vendo-o, haveria piedade d’elle e seria demovido a lhes dar o castello. E porque não tinha maneira como d’isto podesse perceber disse a Pero Rodriguez Sarmento que o mandasse levar ao castello, e que elle diria a seu filho, que n’elle ficara, que lh’o entregasse.

Pedro Rodriguez foi d’isto muito ledo e mandou que o levassem logo, e elle, chegando ao pé do logar, chamou pelo filho, o qual veiu á pressa, e elle, em vez de dizer que désse o castello áquelles que o levavam, disse ao filho n’esta guisa:

– Filho, bem sabes como esse castello me foi dado por el-rei D. Fernando, meu senhor, que o tivesse por elle, e lhe fiz por elle menagem; e por minha desventura, eu sahi d’elle cuidando de o servir, e sou ora preso em poder de seus inimigos, os quaes me trazem aqui para te mandar que lh’o entregues; e porque isso é cousa que eu fazer não devo guardando minha lealdade, porém te mando, sob pena da minha benção, que o não faças, nem o dês a nenhuma pessoa senão a el-rei, meu senhor, que m’o deu, ca por te perceber d’isto me fiz aqui trazer; e por tormentos e morte que me vejas dar não o entregues a outrem senão a el-rei, meu senhor, ou a quem t’o elle mandar entregar por seu certo recado.

Os que o preso levavam, quando isto ouviram, ficaram espantados de suas razões, e perguntaram-lhe se dizia aquillo de jogo ou se o tinha assim na vontade; e elle respondeu que para o perceber d’isto se fizera ali trazer, e que assim lh’o mandava, sob pena da sua benção. Elles, tendo-se por escarmidos, com queixumo d’isto, em presença do filho o mataram n’essa hora, de crueis feridas, e não cobraram porém o castello.

E porque aquella terra é muito povoada não podiam todos caber no castello, e acolhiam-se d’elles entre o muro e a barbacan, em choças cobertas de colmo que ali fizeram; e, ventando então um vento suão, tomou um d’aquelles que estavam fóra um colmeiro acceso, posto em uma lança, e deitou-o dentro em cima das choças, e começaram d’arder. (de facto foram encontradas cinzas nos níveis arqueológicos relativos a este período, aquando da escavação do castelo).

Os do castello, muito anojados pela morte de Nuno Gonçalves, que lhe assim viram dar, não tiveram mentes no fogo que deitaram, estando muito espantados das razões que dissera ao filho.

O fogo era grande, por azo do vento, a que se remedio não podia pôr, e arderam todas as choças, com quanto n’ellas sija, e muita gente n’ellas; e o filho de Nuno Gonçalves manteve o castello, como lhe seu pae mandou, e depois lhe deu el-rei um muito honrado beneficio, porquanto lhe prouve escolher vida de clerigo.

Ainda hoje, junto à estação de comboios de Barcelos é possível encontrar uma estátua de Nuno Gonçalves e seu filho, Gonçalo Nunes. O Castelo de Faria é um Monumento Nacional passível de ser visitado no Monte da Franqueira a poucos quilómetros da cidade de Barcelos.

Monumento aos Alcaides de Faria em frente à estação de comboios de Barcelos.

LOPES, Fernão, 1380?-1460. Chronica de el-rei D. Fernando / Fernão Lopes. – Lisboa : Escriptorio, 1895-1896. – 3 v. ; 19 cm. – (Biblioteca de clássicos portugueses)

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